domingo, 13 de novembro de 2016

Uma Análise do livro de Michael Haykin, "Nós Confiamos no Sangue da Salvação": Expiação Limitada na Igreja Primitiva" (57-74)

Tradução  da obra:  The Extent of The Atonement, A Historical and Critical Review, autor David L. Allen, Editora B&H Academic, pag. 662-666.

David L. Allen analisa criticamente a suposta proposta apresentada por Michael Haykin de que os pais da igreja defendiam uma Expiação Limitada. Tendo feito essa considerações vamos ao texto de David L. Allen.

Uma Análise  do livro de Michael Haykin, "Nós Confiamos no Sangue da Salvação": Expiação Limitada na    Igreja Primitiva"  (57-74)

Traduzido por  Josimar Rodrigues.

Michael Haykin contribui com um capítulo sobre a expiação limitada na igreja primitiva. Embora talvez Haykin seja conhecido mais como um erudito da história Baptista, ele escreveu uma dissertação sobre a controvérsia Pneumatológica  no quarto século. Historicamente, o ponto inicial de partida para examinar a questão da extensão da expiação seria o período da patrística.
Antes de lançar uma discussão sobre os sete principais pais da igreja, Haykin apontou que a questão da extensão da expiação não era controversa na igreja primitiva. Então "o que pode ser extraído desta doutrina daquela época são principalmente comentários implícitos e não afirmações direta".[20]
                Este é um ponto importante, porque na verdade não há nenhuma afirmação aberta sobre expiação por qualquer pai da igreja, embora existam várias declarações claras sobre a preocupação com a expiação universal. Haykin examinou os seguintes sete principais pais da igreja: Clemente de Roma, Justino Mártir, Hilário de Poitiers, Ambrósio, Jerônimo, e brevemente Agostinho e Próspero de Aquitânia.[21]

Clemente de Roma.

Haykin aceitou o "resumo contextual" de Gill que "os eleitos de Deus" com "nós" em 1 Clemente 49:5 sendo "inteiramente justificável."[22] Mas isso não é prova de que Clemente tenha defendido uma expiação limitada no sentido de que Cristo morreu apenas pelos pecados dos eleitos. Na verdade, Haykin até mesmo nos apontou 1 Clemente 7:4, onde ele diz que o sangue de Cristo "disponibilizado conquistou a graça do arrependimento ao mundo inteiro". Isso parece ser uma declaração clara afirmando uma expiação universal através de Cristo para o mundo. Haykin concluiu sua breve análise de Clemente, observando que as passagens examinadas "fornecem vislumbres de perspectivas soteriológicas, uma das quais parece estar claramente de acordo com as ênfases do NT que a morte de Cristo foi para os eleito."[23] Isso está muito longe de afirmar que o próprio Clemente defendeu uma expiação limitada.

 Justino Mártir.

Aqui Haykin elencou talvez uma dúzia de declarações de Justino, que fala especificamente sobre a questão da extensão da expiação. Haykin concluiu que "todas estas referências implicam especificidade na extensão da expiação". Duas coisas devem ser observadas: (1) Haykin "sugere"  e "afirma" que Justino Mártir não ensinou abertamente e nem definiu uma expiação, (2) na realidade, contextualmente todas essas referências demonstram e implicam especificidade com respeito à expiação para aqueles que Crer, não uma expiação limitada de pecados para os eleitos somente. Haykin então apontou com razão para um texto-chave que indica que Cristo morreu pelos pecados de todos: Cristo sofreu "no lugar da raça humana."[24] Mas Haykin concluiu que esses textos de Justino "não fornecem uma declaração clara sobre a extensão da expiação" A tentativa de sobrepor a afirmação clara de Justino sobre uma expiação universal com suas outras afirmações e concluir então que "elas podem muito bem ser interpretadas como afirmando uma particularidade na extensão da expiação"[25] equivale a uma súplica apelativa. Há peculiaridades na aplicação da expiação como todos os pais da igreja afirmam. Mas não há nenhuma declaração limitando a expiação em sua extensão exclusivamente  para os eleitos.
Hilário de Poitiers.

Haykin citou Hilário em Sl. 129:9, incluindo a declaração de que Cristo "veio para remover os pecados do mundo."[26] Notando que Hilário frequentemente usou o plural da primeira pessoa em relação à expiação em seu comentário sobre os Salmos, Haykin concluiu que "o conceito de redenção particular não está fora do alcance do pensamento de Hilário."[27] Mas isso não leva em conta que quando qualquer autor, bíblico ou não, fala da expiação no contexto de dirigir-se a crentes ou com referência a crentes, o uso de plurais em primeira pessoa seria inevitável e de modo algum servirá para indicar que o autor estava falando apenas dessas pessoas. Assumir tal postura seria invocar a falácia de inferência negativa. Que a morte de Cristo "tem um significado especial para os crentes"[28] não é negada por ninguém, mas certamente não implica uma expiação limitada.

Ambrósio.

Aqui Haykin observou que "uma análise atenta das declarações de Ambrósio sobre a cruz revela as sementes de certas explicações textuais ... que mais tarde seriam empregadas na defesa da expiação limitada no final do século XVI e XVII."[29] Mas, novamente, esta não é nenhuma prova de que Ambrósio defendeu a expiação limitada. Haykin, dependente da tradução originalmente do Latim feita por Gill e Gill's, onde afirmam que Ambrósio empregou o duplo argumento do risco que John Owen usou para sustentar seu caso para a expiação limitada. Mas contextualmente, duas coisas se tornam evidentes.
Em primeiro lugar, está claro que Ambrósio afirmou a expiação universal na seguinte citação que precede imediatamente a citação feita por haykin:
A Escritura disse também, de uma maneira maravilhosa: "Ele o entregou por todos nós", mostrando que Deus ama a todos que entregou o seu filho amado por cada um. Para os homens, portanto, Ele deu o dom [salvação] que está acima de todos os dons; Seria possível  que Ele não tenha oferecido a todos esse dom?[30]
Aqui, a dependência de Haykin em relação a Gill nesse ponto é problemático. Nada em Ambrósio levaria a concluir que ele afirmava uma expiação limitada.
Em segundo lugar, Ambrósio não estava usando o argumento do duplo risco (uma pessoa sendo punida duas vezes pelo mesmo crime) como Owen usou. Como Shedd observou com razão, o duplo risco como Owen tentou usá-lo é inadmissível porque nenhuma pessoa está sendo punida duas vezes.[31] Na seção que Haykin citou de Ambrósio, Ambrósio deixou claro que ele estava se dirigindo aos crentes (observe a segunda pessoa "você"). Ele já declarou que Cristo morreu pelos pecados de todos os homens. Agora ele está endereçando os benefícios dessa salvação para aqueles que creem. Ambrósio está justamente distinguindo entre a extensão da expiação e a aplicação da expiação, o que Owen e Haykin não fazem. O significado para Ambrósio é que os crentes não podem mais ser responsabilizados pelo castigo futuro.

Jerônimo.

Haykin citou o Comentário de Jerônimo sobre Mateus (3,20) com referência a Mateus 20:28. Ele admite que há ambiguidade na declaração de Jerônimo, mas disse que as palavras "insinuam que Jesus viu a morte de Cristo para um grupo particular de pessoas - crentes."[32] Novamente, aqui as questões são se Jerônimo tem em mente a intenção, extensão ou aplicação da expiação. Nada nesta citação afirma a expiação limitada nem impede a expiação universal. "Sugerem que Jesus viu a morte de Cristo como sendo para um grupo particular de pessoas - crentes".

Agostinho.

Haykin nunca disse que Agostinho ensinou uma expiação limitada, mas afirmou que alguns de seus comentários "sugerem."[33] Apelou às declarações de Agostinho sobre João 10:26; 14:2; e 1 João 2:2. Muitos calvinistas que defendem uma expiação ilimitada interpretam 1 João 2:2 se referindo apenas à igreja.[34] Além disso, Haykin não observou o fato de que é claro que Agostinho pensou que Jesus expiou os pecados de Judas![35]
Não usarei o espaço aqui para relatar as diversas vezes que Agostinho afirmou a expiação ilimitada através do uso de frases tais como Cristo morreu "pelos pecados de todo o mundo", a morte de Cristo é o "resgate do mundo inteiro" e como Cristo "pagou o preço pelo mundo inteiro". Olhe "Agostinho" acima. Em sua Exposição sobre o Livro dos Salmos, Agostinho falou do "mundo" em relação à expiação de tal maneira que exclui qualquer possibilidade de significado diferente para cada pessoa do mundo.[36]
Haykin apelou para a opinião de Raymond Blacketer sobre Agostinho. Curiosamente, Blacketer corretamente observou que "não há nenhuma declaração única do bispo de Hipona que explicitamente declara que a intenção de Deus no sacrifício de Cristo era obter redenção apenas para os eleitos ". Mas ele, então, incorretamente concluiu que essa era "precisamente a visão que Agostinho tinha."[37]
Blacketer, e talvez Haykin, confundiu as declarações de Agostinho sobre a vontade predestinadora de Deus para os eleitos com sua visão sobre a satisfação real por todo o pecado, o que Cristo realizou na expiação.

Próspero.

Haykin também erroneamente interpretou Próspero primeiro dando "fortes sugestões de uma expiação limitada em Agostinho."[38] Ele citou Próspero como dizendo que Cristo morreu "por todos", mas também notou que Próspero disse "que Ele foi crucificado apenas por aqueles que se beneficiam com sua morte."[39] Haykin não conseguiu discernir em que sentido Próspero fez essas declarações. Em resposta à objeção de que Cristo "não sofreu pela salvação e redenção de todos os homens", Próspero afirmou claramente a morte de Cristo pelos pecados de todos, mas também afirmou que somente aqueles que creem se beneficiarão da obra salvadora de Cristo: "Uma vez que nosso Senhor tomou sob si mesmo a única natureza e condição que é comum a todos os homens, é correto dizer que todos foram redimidos e que, no entanto, nem todos são realmente retirados da escravidão do pecado."[40]
Haykin observou ainda que Próspero, posteriormente em sua carreira , "parece ter suavizado esse compromisso com a expiação limitada, ou mesmo o tenha a rejeitado em favor de uma defesa da vontade salvífica universal de Deus com base em sua leitura de 1 Timóteo 2:4."[41] Mas mesmo em seu período anterior, o chamado alto agostiniano, Próspero manteve a mesma exegese de 1 Tim 2:4 que ele em sua alegada fase de partida fez mais tarde. 
Não há nenhuma evidência de sua interpretação de 1 Tim 2:4 na Chamado dos Gentios que Próspero partiu de uma suposta posição anterior da expiação limitada. Tudo isso é um desvio de Próspero e pode ser visto quando se lê cuidadosamente as seções pertinentes da sua defesa de St. Agostinho.[42] É evidente que Próspero afirmava a expiação ilimitada e nunca a expiação limitada.
Em conclusão, Haykin deve ser elogiado pelo fato dele não afirmar que nenhum desses autores que ele pesquisou afirme claramente a expiação limitada. Mas ele deve ser criticado por várias questões. Primeiro, o capítulo é apenas uma breve pesquisa de sete pais da igreja. Em segundo lugar, Haykin perdeu significativa evidência contrafactual que mostra claramente alguns desses homens afirmando uma justificação ilimitada de pecados e, portanto, não afirmam uma expiação limitada. Jerônimo é um exemplo. Ele não trabalhou todos os escritos existentes dos seus escolhidos pais da igreja com o objetivo de se envolver em uma pesquisa analítica/sintética. Reconheço que ele não pode cobrir todo o campo; Ninguém poderia. No entanto, é preciso ter mais base do que se reflete neste capítulo. Terceiro, ele parece depender fortemente de fontes secundárias (Gill e Blacketer) e não consegue interagir com outras fontes secundárias significativas. São problemas metodológicos sérios.
O capítulo de Haykin passa a sensação de estar apressado e muito dependente de fontes secundárias. Esta não é certamente a norma para a escrita de Haykin. Eu aprecio sua meticulosidade cuidadosa e usual. Mas neste caso, seu capítulo não é um guia confiável sobre este assunto.





[20]  M. Haykin, "'We Trust in the Saving Blood': Definite Atonement in the Ancient Church," in From Heaven He Came and Sought Her, 60.
[21]  Veja o capítulo um da primeira parte desta obra.
[22]  M. Haykin, "'We Trust in the Saving Blood': Definite Atonement in the Ancient Church," 61.
[23]  Ibid., 62.
[24]  Ibid., 64. Justin Martyr, "Dialogue with Trypho. a Jew," The Apostolic Fathers, Justin Martyr, Irenaeus, in Ante-Nicene Fathers, 10 vols., ed. A. Roberts and J. Donaldson, rev. By A. C. Coxe (1885; repr. Peabody, MA: Hendrickson, 2004), 1:247.
[25]  Ibid., 65.
[26]  Ibid., 67.
[27]  Ibid., 68.
[28]  Ibid.
[29]  Ibid., 70.
[30]  Ambrose, "Jacob and the Happy Life," in Seven Exegetical Works. Fathers of the Church 65, trans. M. P. McHugh       (Washington: Catholic University of America Press, 1970), 135-36.
[31]  W. G. T. Shedd, Dogmatic Theology (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1980), 2:443.
[32]  M. Haykin, "'We Trust in the Saving Blood': Definite Atonement in the Ancient," 70.
[33]  Ibid., 71.
[34]  For Examples, see my chapter "The Atonement: Limited or Universal?," in Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of five-Point Calvinism, ed. D. L. Allen and S. Lemke (Nashville: B&H Academic, 2010), 61-107.
[35]  See Augustine's "Exposition of Psalm LXIX," Section 27, in NPNF, eds. P. Schaff and H. Wace (1892; repr Peabody, Ma: Hendrickson, 2004), 8:309.
[36]  Augustine, "Exposition of Psalm XCVI," in NPNF, 8:472. For evidence that Augustine clearly held to universal atonement, see the section on Augustine above.
[37]  R. Blacketer, "Definite Atonement in Historical Perspective," in The Glory of the Atonement Biblical, Historical   and Practical Perspectives, ed. C. Hill and F. James III (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2004), 308.
[38]  M. Haykin, "'We Trust in the Saving Blood': Definite Atonement in the Ancient," 72.
[39]  Ibid., 72.
[40]  Prosper, "Prosper of Aquitaine: Defense of St. Augustine," trans. and annotated P. De Letter, S. J., in Ancient Christian Writers, 66 vols. (New York: Newman, 1963), 32:164.
[41]  M. Haykin, "'We Trust in the Saving Blood': Definite Atonement in the Ancient," 73.
[42]  Prosper, "Prosper of Aquitaine: Defense of St. Augustine," 32:149-51; 32:159-60; 32:164.

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