segunda-feira, 24 de julho de 2017

Entrevista com Pr. Silas Daniel, autor do livro "Arminianismo: A mecânica da salvação"


É com grande alegria que entrevistamos o Pr. Silas Daniel que recentemente lançou seu livro "Arminianismo: A mecânica da Salvação". Este livro vem sendo elogiado no meio teológico brasileiro por mostrar de maneira histórica, logica e bíblica a teologia arminiana sempre defendida pelas Assembleias de Deus. Segue as perguntas que fizemos ao renomado pastor que gentilmente se propôs a nos responder.  

1) Pastor para começar queremos que o senhor nos conte sobre sua trajetória de fé. Como conheceu o evangelho e como chegou a ser esse brilhante escritor que nos abençoa com seus livros e artigos?

Nasci em um lar evangélico, só que minha experiência de conversão a Cristo ocorreu aos 9 anos de idade, quando meu pai chamou à parte a mim e a meus dois irmãos, que tínhamos à época 10, 9 e 7 anos respectivamente, para nos apresentar o plano de Salvação de uma forma que nós pudéssemos entender. Após sua exposição clara, ele perguntou se queríamos aceitar Jesus como Senhor e Salvador de nossas vidas, e nós respondemos em uníssono que queríamos. Oramos com ele naquela oportunidade e passamos a seguir a Cristo de fato a partir daquele dia. Depois dessa experiência, ainda aos 9 anos, li a Bíblia toda pela primeira vez. Li também o meu primeiro livro evangélico inteiro com essa idade – “Heróis da Fé” (CPAD), do missionário Orlando Boyer – e continuei a ler a Bíblia e livros evangélicos sem parar – inclusive, obras teológicas já na minha pré-adolescência. Com 10 anos, já havia lido a Bíblia toda três vezes. Um fato enriquecedor para minha vida espiritual também foi termos em casa, diariamente, o culto doméstico, onde aprendemos a maioria dos hinos da Harpa Cristã e do Cantor Cristão; e, logo após o culto, tínhamos muitas vezes conversas edificantes sobre textos da Palavra de Deus. Nossos pais sempre nos estimularam à leitura e à oração. Aos 14 anos, passei pela experiência do Batismo no Espírito Santo. Aos 15 anos, comecei a pregar. Aos 17 anos, passei a dirigir um ponto de pregação da Campanha Evangelizadora da Assembleia de Deus em Recife, igreja onde congregava. Aos 18 anos, fui consagrado ao diaconato e aos 20, ao presbitério, ambas as vezes pelo pastor José Leôncio da Silva, então líder da AD pernambucana. Com 19 anos, lancei meu primeiro livro: um comentário devocional sobre a Parábola do Filho Pródigo. Foi uma obra independente. Fiz uma tiragem inicial de 1,1 mil exemplares, a qual foi vendida em 3 meses. Ainda aos 20 anos, mudei-me para o Rio de Janeiro, onde terminei meus estudos e fui ordenado ao ministério – aos 23 anos, como evangelista e aos 27 anos, como pastor. Sou a terceira geração de pastores assembleianos em minha família – meu avô de parte de pai e meu pai, ambos em Pernambuco, foram os primeiros. No Rio de Janeiro, fiz Jornalismo e Teologia, e ainda estou concluindo um curso de Direito. Há 19 anos trabalho na Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), sempre na área de Jornalismo. Há 8 anos e meio chefio o Departamento de Jornalismo da Casa. Nesses anos, já publiquei 11 livros pela CPAD, sendo 4 em coautoria. Desde minha adolescência, sou apaixonado por pregar, ensinar e escrever acerca da Palavra de Deus. Com o passar do tempo, apenas desenvolvi esse dom que Deus me deu por sua graça.

2) Lembramos de um debate que o irmão teve com um conhecido calvinista referente ao seu artigo “Em defesa do arminianismo”. O irmão poderia nos falar um pouco sobre esse debate?

Nos últimos anos, surgiu uma onda neocalvinista nos Estados Unidos, e assim como acontece com tudo que é moda nos EUA, não foi diferente nesse caso: a onda chegou também ao Brasil. Logo que constatei que alguns assembleianos em nosso país – principalmente jovens, mas alguns obreiros também – estavam aderindo ao calvinismo por falta de um melhor conhecimento sobre a posição arminiana, e que a liderança da nossa denominação não havia ainda atentado para esse problema, resolvi trazer essa discussão, que se dava até então apenas na periferia – isto é, somente na internet, via alguns blogs e redes sociais – para o centro das atenções da denominação, escrevendo um artigo sobre o assunto na revista oficial de reflexão teológica da denominação: a revista “Obreiro Aprovado” (CPAD). Qual não foi a minha surpresa ao ver que esse artigo – escrito em uma revista assembleiana e voltado apenas e exclusivamente para o público assembleiano – começou a ganhar repercussão fora dos arraiais da AD. Até hoje não sei direito o porquê. Há quem diga que uma vez que os irmãos calvinistas passaram, nos últimos anos, a vender mais obras teológicas e a superlotar seus eventos teológicos depois que muitos assembleianos começaram a se interessar pelo calvinismo, esse meu artigo em uma revista teológica oficial da denominação passou a chamar a atenção desses irmãos de fora do círculo assembleiano. Há também quem diga que, na verdade, alguns assembleianos calvinistas militantes, preocupados com a minha crítica à adesão de assembleianos ao neocalvinismo, foram incomodar o irmão Franklin para que rebatesse meu artigo. Simplesmente, não sei. O que sei é que o debate com o irmão Franklin Ferreira se deu em um tom respeitoso, irênico. E atraiu uma grande audiência na internet. Passei até a ser abordado constantemente em minhas costumeiras viagens para ministrar pelo Brasil por irmãos em Cristo ávidos pela conclusão da minha série de respostas às objeções do irmão Franklin ao meu artigo. Meus artigos-resposta, como muitos devem saber, foram publicados em minha coluna no site CPADNews. Ainda tinha mais uns dois artigos para publicar encerrando a sequência de respostas (se é que seria encerrada mesmo, porque eventuais novas intervenções do irmão Franklin poderiam provocar naturalmente novas respostas), quando a direção da CPAD me deu a sugestão de, em vez de escrever um “livro” na internet sobre o assunto (meus artigos eram enormes), publicar um livro pela CPAD abordando o tema. Topei. Assim, passei um ano escrevendo o livro “Arminianismo – A Mecânica da Salvação”, meu undécimo livro pela Casa, lançado há pouco mais de dois meses e cuja segunda tiragem já está sendo impressa nesta semana.
Outro fruto dessa série de artigos é que já fui abordado em lugares diferentes do país por mais de uma dezena de irmãos que me confidenciaram que haviam aderido ao calvinismo, mas, após lerem meus artigos e se aprofundarem mais no conhecimento da teologia arminiana, passaram a ser arminianos. Foi uma alegria ver também a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB) ter como tema da sua 43ª Assembleia Geral Ordinária, realizada em abril deste ano, “Salvação e Livre-Arbítrio”. A liderança da nossa denominação, sempre preocupada na manutenção da identidade assembleiana, decidiu neste ano enfatizar o posicionamento da AD nessa questão, posicionamento este que foi cristalizado em nossa “Declaração de Fé”, que começou a ser elaborada em 2012 e cujo texto final ficou muito bom. Ela é fiel ao legado teológico dos nossos pioneiros.

3) Recentemente ouvimos de um pastor presbiteriano muito famoso que “O futuro da teologia reformada (por reformada ele se refere a calvinismo) no Brasil são as igrejas pentecostais”. O que o irmão acha dessa declaração?

Até entendo essa preocupação. Denominações que são grandes bastiões da teologia calvinista estão em queda no nosso país. Nossos irmãos presbiterianos e congregacionais, por exemplo, segundo o Censo 2010 do IBGE, experimentaram uma queda no número de fiéis nos últimos anos. Em 2000, havia, segundo o IBGE, 981 mil presbiterianos no Brasil. Em 2010, esse número caiu para 921 mil. Em 2000, segundo o IBGE, havia 148 mil congregacionais no país. Em 2010, esse número caiu para 109 mil. Nos Estados Unidos, as denominações históricas também estão em queda por lá. Logo, quando os irmãos calvinistas vêem jovens assembleianos empolgados com o calvinismo, criando sites em defesa do calvinismo, comprando seus livros e enchendo seus eventos, eles têm esperança de que o calvinismo ainda sobreviva no país via pentecostalismo. Entretanto, acho tal declaração exagerada demais. O neocalvinismo é apenas uma onda passageira como outras. Ela já está, inclusive, em fase inicial de declínio. Claro que sempre existirão irmãos calvinistas, mas o calvinismo tende a continuar sendo uma parcela minúscula do evangelicalismo mundial. A maioria esmagadora dos evangélicos no Brasil e no mundo é de pentecostais e sinergistas, e não há nada que sinalize que isso irá mudar nos próximos anos.

4) Vimos nos últimos anos um certo crescimento de pentecostais em nossas igrejas que aderiram a teologia calvinista, membros obreiros e até pastores, muitos inclusive passaram a divulgar esta teologia em nossas escolas e púlpitos. Qual a sua opinião sobre esses e o que o senhor aconselharia a eles? Diante da nova Declaração de Fé das Assembleias de Deus, o senhor considera que a igreja deve tomar posição com relação a esses pastores? E os novos devem ter como critério para adentrar só ministério subscrever a declaração?

Ano passado ou retrasado, cheguei a responder a uma pergunta sobre isso em uma entrevista para um blog pentecostal. Escrevi sobre isso também em meu artigo já mencionado na revista “Obreiro Aprovado” e em um artigo em minha coluna do CPADNews. Volto a dizer aqui o que disse nessas oportunidades: sou absolutamente contra qualquer espécie de “caça às bruxas” dentro da denominação, no sentido de limar da igreja todos aqueles que têm convicções calvinistas. Uma pessoa pode ter convicções calvinistas e permanecer na denominação, pois ninguém vai sair em busca de descobrir quem tem ou não esse tipo de convicção dentro da igreja. Isso é tolice. Agora, o que não podemos aceitar é que obreiros assembleianos, professores de Escola Dominical assembleianos e professores assembleianos de seminários teológicos oficiais da denominação façam proselitismo calvinista nos púlpitos, salas de Escola Dominical e salas de seminários de nossa denominação, indo frontalmente contra o pensamento doutrinário de sua denominação. Se a pessoa quer fazer isso, se quer bater de frente com a liderança de sua igreja e com a posição oficial de sua denominação, é melhor que saia e vá para uma outra denominação onde não terá problemas em ensinar essas coisas.
Quanto à denominação ordenar apenas obreiros que subscrevam a Declaração de Fé das Assembleias de Deus, é mais do que natural. Na verdade, isso já está subentendido em qualquer ordenação ministerial. Aliás, antes mesmo de a Declaração de Fé da AD ser elaborada, isso já existia na prática e explicitamente. Em algumas convenções regionais da AD, a pessoa só é ordenada depois de passar por um teste escrito e uma sabatina oral sobre suas posições teológicas.
Em qualquer denominação, para ser ordenado ao ministério, o candidato a ministro deve empenhar palavra de honra quanto à defesa dos pontos doutrinários esposados pela denominação que o está ordenando. E se ele, depois de ordenado, descumprir seus juramentos ordenatórios, poderá sofrer um processo para ser retirado do ministério. É assim que a coisa é tratada em todas as denominações. Por que deveria ser diferente na Assembleia de Deus? Aliás, nunca foi. Na década de 30, pastores assembleianos que aderiram ao calvinismo e se tornaram militantes dessa corrente dentro da denominação foram excluídos exatamente por essa razão da CGADB pelos missionários e pastores pioneiros que estavam à frente da denominação. Só um desses pastores não voltou atrás, mas todos os demais que haviam sido excluídos e se arrependeram de suas posições calvinistas anteriores, foram reintegrados à AD ainda nos anos 30. Eu conto isso em meu já mencionado artigo “Em Defesa do Arminianismo”, publicado em “Obreiro Aprovado” (CPAD), edição do primeiro trimestre de 2015.
Vejamos outro exemplo: Alguém pode ser considerado ainda assembleiano se não crê mais na doutrina bíblica pentecostal do Batismo no Espírito Santo? Seria coerência se dizer ainda assembleiano mesmo não se crendo mais nessa doutrina? A resposta, obviamente, é “não”. Mas isso não significa que sairemos agora fazendo “caça às bruxas” para saber quem, no fundo, no fundo, pensa ou não assim nas ADs pelo Brasil. Afinal, até aí a coisa é um problema pessoal, de consciência da própria pessoa. O problema só passa do fórum pessoal quando a pessoa resolve confrontar sua denominação para que ela se curve à sua crença pessoal divergente, ou quando sai disseminando-a explicitamente na denominação, o que se constitui também uma atitude de confronto.

5) Essa influência calvinista também tem trazido para dentro da igreja um mal inevitável que via de regra acompanha o calvinismo que é o cessacionismo. Qual a sua visão do cessacionismo e porque o senhor acha que muitos jovens têm aderido a ele ou a uma espécie de pentecostalismo sem prática: eles creem ainda nos dons, mas não vemos uma busca por eles e há até mesmo uma falta de exercício desses dons na igreja?

Deixemos claro: nem todo calvinista é cessacionista. Entretanto, qualquer calvinista mais ortodoxo, mais purista, mais rígido, é cessacionista. O calvinismo traz isso dentro do pacote, por isso muitos que aderem à soteriologia calvinista acabam, com o passar do tempo, após encherem suas mentes de obras calvinistas, também se tornando cessacionistas – se não declaradamente, mas na prática. Eu já vi isso acontecer em uma denominação pentecostal. Após seu líder aderir ao calvinismo, os dons e a busca pelo Batismo no Espírito Santo começaram a ser desestimulados e, pouco tempo depois, não havia mais profecias, batismos no Espírito, manifestações dos dons espirituais, nada disso mais na igreja. Ela se despentecostalizou. Tirou até o nome “pentecostal” do letreiro. Uma pena.

6) O senhor considera o calvinismo uma heresia ou apenas um erro teológico, se a resposta for um erro, quão grave é este erro e qual a melhor forma de combater esse erro na igreja de Cristo?

O calvinismo compatibilista – que é o majoritário hoje no meio calvinista – é apenas um erro teológico. Trata-se de um equívoco apenas no que concerne à mecânica da Salvação e não à mensagem da Salvação, que é o essencial. Além do que, o calvinista compatibilista normalmente toma suas decisões como reais, como qualquer arminiano, mesmo tendo conceitos equivocados sobre a relação entre livre-arbítrio e soberania de Deus e sobre a relação entre livre-arbítrio e onisciência divina. Ele justifica tal atitude jogando a sua contradição lógica no departamento do “mistério”. Ora, como a substância das ações é mais importante do que as implicações lógicas do discurso adotado pela pessoa, e como podemos ser salvos sem precisar saber explicar perfeitamente essa experiência teologicamente, o calvinismo compatibilista não é uma heresia perniciosa. Entretanto, não deixa de ser um erro. E como todo erro, se a pessoa que está nele for imprudente, ele poderá levá-la a algumas tendências que podem ser muito perigosas, como ocorre em todas as compreensões equivocadas sobre a mecânica da Salvação ou em qualquer erro concernente a uma doutrina bíblica secundária. Explico isso em detalhes no meu livro “Arminianismo – A Mecânica da Salvação”. Quanto à melhor forma de combater esse erro, não vejo outra, se não o ensino persistente, sistemático e claro da mecânica da Salvação à luz da Bíblia.

7) Sobre seu livro “Arminianismo: A Mecânica da Salvação”, queremos saber o que motivou o amado irmão a escrever esta obra?

Como já adiantei, esse contexto todo do neocalvinismo no Brasil e o crescente interesse de milhares de irmãos no país em se aprofundar cada vez mais no conhecimento histórico e doutrinário do Arminianismo. Nos últimos dois anos, ministrei dezenas de palestras sobre esse assunto pelo país e vi esse desejo nas pessoas. Diante disso, e ainda mais depois da sugestão da própria CPAD para que eu escrevesse a respeito do assunto, não pensei duas vezes e parei um projeto literário que já estava a caminho para dar início a este, que veio ao lume neste ano.

9) O senhor pretende escrever mais livros sobre a temática arminianismo?

Talvez eu escreva só mais um livro sobre o assunto. Ainda é um esboço em minha mente. Afinal, há muitos outros temas igualmente prementes e/ou interessantes que precisam ser abordados.

10) Mande um recado para nossos mais de 34 mil curtidores.

Tenho recebido mensagens de alguns leitores da página elogiando a obra e gostaria de agradecer ao apoio de todos vocês. Obrigado pela divulgação do nosso trabalho! Que Deus continue abençoando a cada um de forma especial. E quando estiverem de joelhos, sempre lembrem deste seu conservo, pastor Silas Daniel.

sábado, 11 de março de 2017

JÓ 42.2 ENSINA O DETERMINISMO?

JÓ 42.2 ENSINA O DETERMINISMO ?

Texto: Pr. Anderson de Paula
Revisão: Àlefe Joia

Introdução

Continuando nossa serie de estudos sobre os textos usados por deterministas para provar a soberania meticulosa (exaustiva ou determinismo) de Deus, chegamos ao livro de Jó no capitulo 42 onde vemos as belas declarações de Jó diante da grandiosidade de Deus.
O determinista ao olhar as palavras do verso dois de Jó 42, as entende como sendo uma prova cabal de que Deus determina cada coisa que acontece no universo e que Deus não somente permite o mal, mas também o torna certo. O texto referido diz:

“Bem sei eu que tudo podes, e que nenhum dos teus pensamentos pode ser impedido.”

A questão primordial aqui é se esse texto está ensinando que tudo que acontece no mundo é proposito de Deus? Para o determinista a resposta é sim, mas será isso uma verdade? Mostraremos que os deterministas erram na exegese porque esse texto não dá base para declarar que tudo que acontece no mundo é meticulosamente determinado por Deus. Iniciaremos mostrando a compreensão teológica do contexto da época de Jó, depois daremos uma breve explicação respondendo a questão de “porque o justo sofre?”. Só após analisarmos esse contexto é que poderemos ter uma clara compreensão das palavras de Jó em 42.2.

1. A teologia da época de Jó

            É muito importante para nossa compreensão do texto em estudo entender como era a teologia da época relatada no livro, pois uma das chaves para entender é saber o pensamento sobre Deus que Jó e seus amigos tinham. O dr. Staneey Ellisen  nos diz o seguinte sobre o assunto:

            “Uma teologia legalista. O ponto de vista legalista dos três amigos sobre pecado e sofrimento fazia parte da ortodoxia da época, também defendida por Jó. Deus era considerado uma divindade de “causa e efeito” que recompensava e punia imediatamente de um modo automático e indireto. Uma opinião errada a respeito de Deus deu aos três amigos uma opinião equivocada a respeito de Jó, de seu sofrimento e promoveu uma opinião errada sobre eles mesmos. Produziu também um ponto de vista falho sobre a maneira de Deus salvar e amadurecer indivíduos. Eles desconheciam o fato de Deus estar sempre pronto a estender sua misericórdia e graça aos indignos. Assim a recusa de Jó em aceitar a solução mecânica para o seu sofrimento foi julgada como blasfêmia. O resultado deste debate foi um golpe violento na errada ortodoxia, deixando espaço para a reconstrução da fé em uma verdadeira concepção de Deus.” [1]

De acordo com as palavras acima, vemos que a má ortodoxia levou os personagens a uma visão de um Deus completamente equivocada. A ideia dos amigos de Jó (e do próprio Jó) era de que riqueza e saúde eram evidencias que a pessoa era justa e gozava do favor do Senhor pelas obras que realizava, e o sofrimento era, na verdade, um castigo de Deus para o pecado conforme Elifaz (amigo de Jó) deixa claro quando diz:

“Lembra-te agora qual é o inocente que jamais pereceu? E onde foram os sinceros destruídos? Segundo eu tenho visto, os que lavram iniquidade, e semeiam mal, segam o mesmo. Com o hálito de Deus perecem; e com o sopro da sua ira se consomem.” Jó 4:7-9

O contexto dessa declaração nos mostra que ela está inserida na ideia de que se a pessoa sofre, logo é por estar em rebeldia contra Deus. Segundo esse amigo de Jó, a pessoa que sofre não é inocente, sincera e pratica o mal.

A má ortodoxia fica ainda mais evidente quando vemos as palavras de Bildade (segundo amigo de Jó), que diz:

“Porventura perverteria Deus o direito? E perverteria o Todo Poderoso a justiça? Se teus filhos pecaram contra ele, também ele os lançou na mão da sua transgressão. Mas, se tu de madrugada buscares a Deus, e ao Todo-Poderoso pedires misericórdia; Se fores puro e reto, certamente logo despertará por ti, e restaurará a morada da tua justiça.” Jó 8:3-6

Como podemos observar Bildade também está inserido neste pensamento errôneo sobre Deus e entende que se uma pessoa está sofrendo é porque fez algo contra Deus. Zofar, o terceiro amigo de Jó, tendo essa mesma teologia legalista afirma que:

            “Se tu preparares o teu coração, e estenderes as tuas mãos para ele; se há iniquidade na tua mão, lança-a para longe de ti e não deixes habitar a injustiça nas tuas tendas. Porque então o teu rosto levantarás sem mácula; e estarás firme, e não temerás” Jó 11:13-15.

            Zofar entendia que Jó havia feito alguma iniquidade e precisava confessar. Para ele, e para os outros dois amigos de Jó, era inconcebível que alguém sofresse sem que tivesse feito alguma injustiça, pois na teologia da época todos os que sofriam estavam assim por alguma iniquidade.

1.2 Por que o Justo sofre?

Com as observações apresentadas sobre o pensamento teológico da época de Jó podemos entender o motivo de Deus permitir que o Diabo fizesse todas aquelas mazelas com Jó. A questão não era que Jó não fosse um justo, pois o próprio Deus chama a Jó de íntegro e reto. Isso sugere que Jó não só se desviava do mal na presença dos outros, mas que até mesmo quando estava sozinho continuava agindo da mesma maneira reta, pois temia ao Senhor e por isso seu caráter era sincero (Jó 1.8). A questão repousa no entendimento errado que Jó e seus amigos tinham sobre Deus. Para eles, Deus não passava de uma divindade mecânica pronta para castigar os impenitentes com sofrimentos e dores. É verdade que Deus pune os maus, mas Deus também prova seus filhos com o objetivo de torná-los melhores. Deus então permite que todas essas coisas aconteçam para promover um amadurecimento em seu povo. Como Stanley Ellisen diz:

 “O sofrimento é um privilegio que Deus da ao seu povo para ajuda-lo a cumprir um grande proposito, tal como refutar Satanás.” (Jó 1.8).

Não é que Deus seja dependente do homem, mas que Ele graciosamente nos dá o privilegio de cooperar com Ele na execução de seu proposito que, no caso do contexto do livro, era mostrar o péssimo entendimento que se tinha sobre Deus. Aqui cabe uma observação! Esse mesmo entendimento tem surgido em meio do atual cenário teológico com o nome de teologia da prosperidade. Os defensores dessa “teologia” entendem que se uma pessoa sofre não tendo riquezas ou tendo alguma enfermidade, é porque estão longe de Deus. Isso fere completamente as escrituras porque a própria Bíblia refuta tal ideia. Podemos ver na Palavra do Senhor que vários homens de Deus passaram por dificuldades e nem por isso estavam longe d’Ele. Paulo nos informa que passou por diversas fazes da vida. Em Filipenses 4, ele diz:
           
“Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade. Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece.” Filipenses 4:12,13

O crente quando entende que Deus não deixará vir sobre si nada que não possa suportar (1ª Coríntios 10.13), sabe que quando Deus permite algo sobre nós está nos instruindo a sermos crentes melhores que não blasfemarão quando estiverem passando necessidades e não se esquecerão de Deus quando estiverem em abundância. O crente verdadeiro tem a sua confiança, pois ama a Deus e Ele tem poder para fazer todas as coisas cooperarem para o bem dos que O amam (Hebreus 8.28).

 2. Entendendo Jó 42.2

            Agora que entendemos esse contexto sobre o pensamento teológico da época de Jó e respondemos a pergunta de “por que o justo sofre?” podemos então prosseguir para o correto entendimento de Jó 42.2. O texto diz:

            “Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado.”
           
Agora Jó reconhece que Deus pode fazer tudo e não apenas pelo Seu Poder, mas também por Seu Direito. O entendimento errado de Jó que levou o mesmo a murmurar contra Deus era estar sendo punido de maneira injusta. Jó agora entende que Deus tem o direito de agir como bem entender e que deveria confiar em Deus mesmo não entendendo os motivos que levaram Deus a permitir a adversidade. 
Os planos de Deus não podem ser frustrados. É aqui que o determinista erra ao tentar entender esse texto, pois o mesmo não está dizendo que tudo que acontece no mundo é determinado exaustivamente por Deus. O que o texto diz é que nada que o homem ou o diabo fizer poderá frustrar os planos de Deus, mas isso não significa que todas as mazelas que acontecem no mundo sejam a vontade de Deus. Os planos ou propósitos de Deus são conhecidos na sua palavra e são justos e amorosos, pois Deus é Amor. É da vontade de Deus e, portanto seu proposito, salvar os que livremente creem e condenar os que não creem. Entretanto, até condenar os que rejeitam a oferta da salvação deriva da vontade de Deus em preservar os relacionamentos sinceros e não forçar ninguém a ama-Lo sem que esse sentimento seja livre. Norman Geisler cita CS Lewis para demonstrar essa verdade quando comenta o assunto:

“A porta do inferno esta trancada pelo lado de dentro”. Todos os que para lá vão escolheram ir para lá. Lewis acrescentou: “Não se preocupe. Só há duas espécies de pessoas no final: os que dizem a Deus, “Seja feita a tua vontade”, e aqueles a quem Deus diz: A tua vontade seja feita. Todos os que estão no inferno foi porque escolheram. Sem essa auto escolha não haveria inferno. Alma alguma que desejar sincera e constantemente a alegria irá perdê-la. Os que buscam encontram. Para aqueles que batem a porta é aberta.”[2]

Após citar Lewis, Geisler continua:

“Além do mais, o céu seria inferno para os que não se encacham nele. Pois o céu é um lugar de constante louvor e adoração a Deus (Apocalipse 4-5). Mas para os não cristãos, que não gostam de uma hora sequer de adoração por semana na terra, seria o inferno força-los a adorar a Deus eternamente no céu!”[3]

Geisler continua a explicação citando mais uma vez CS Lewis:

“Escutemos Lewis mais uma vez: Todos salvos. A minha razão, porem, replica: com ou sem o consentimento deles? Se disser: sem seu consentimento, percebo imediatamente uma contradição; como pode o ato supremo da auto – rendição ser involuntário? Se disser: “com seu consentimento”, minha razão replica, como, se não quiserem crer?”[4]

Geisler, conclui de maneira majestosa dizendo:

“Deus é Justo e deve punir o pecado (Habacuque 1.13, Apocalipse 20.11 – 15). Mas Ele também é amor (1joão 4.16) e Seu Amor não pode forçar os outros a amá – Lo. O amor através da coerção, mas apenas persuasivamente. O amor forçado é uma contradição em termos, Por conseguinte, o amor de Deus exige que haja um inferno onde as pessoas que não desejam amá-Lo possam experimentar o grande divorcio quando Deus lhe disser: “seja feita a sua vontade!””[5]

Com isso entendemos que os propósitos de Deus sempre são bons propósitos. Deus é bom e justo na maneira como governa o ser humano e não faz nada que seja arbitrário ou contrario a sua natureza santa, justa e amorosa. Jó imaginava que Deus estava sendo injusto ao permitir que todas aquelas mazelas que sobrevieram sobre ele era injustiça, mas ao ver o tamanho da sabedoria divina (Jó 42.3), percebeu que falou do que não conhecia, mas agora Jó sabe que tudo que Deus faz é justo e tem um objetivo bom, mesmo que não se entenda de imediato.

2.1 A opinião de diversos especialistas é contraria ao determinismo

            Ao pesquisar sobre o texto de Jó 42,2 vemos que vários comentaristas respeitados fazem “eco” conosco quando falamos que não existe base para o determinismo nesse verso e nem no contexto do livro de Jó. Agora vamos colocar a opinião de alguns deles e logo em seguida daremos a conclusão do nosso estudo.

Jamieson Fausset

“Na primeira cláusula, ele é dono de Deus para ser onipotente sobre a natureza, em contraste com sua própria fraqueza, que Deus havia provado (Jó 40:15; 41:34); No segundo, que Deus é supremamente justo (o que, para ser governador do mundo, Ele precisa ser) em todos os Seus tratos, em contraste com sua própria vileza (Jó 42: 6) e incompetência para lidar com a Ímpio como juiz justo (Jó 40: 8-14).
Pensamento - "propósito", como em Jó 17:11; (Jó 21:27, Sl 10: 2): a palavra ambígua foi projetada para expressar que, enquanto que para a visão finita de Jó, os planos de Deus parecem ruins, ao Todo-sábio eles continuam sem obstáculos em seu desenvolvimento, e finalmente serão vistos como sendo tão bons quanto eles são infinitamente sábios. Nenhum mal pode emanar do Pai do bem (Tg 1:13, 17); Mas é sua prerrogativa para anular o mal para o bem.[6]

 O comentário de Wiersbe

“A segunda resposta de Jó (Jó 42: 1-6):Jó sabia que ele era espancado. Não havia nenhuma maneira que ele pudesse discutir seu caso com Deus. Citando as próprias palavras de Deus (Jó 42: 3-4), Jó se humilhou perante o Senhor e reconheceu Seu poder e justiça ao executar seus planos (v. 2). Então Jó admitiu que suas palavras foram erradas e que ele havia falado sobre coisas que ele não entendia (v.3). Jó retirou suas acusações de que Deus era injusto e não o tratava com justiça. Ele percebeu que tudo o que Deus faz é certo e o homem deve aceitá-lo pela fé.[7]
           
Henry, Matthew

“Na primeira sentença Jó reconhece que Deus é onipotente sobre a natureza, em contraste com sua própria fraqueza, que Deus havia testado (40:10; 41:34); no segundo, que Deus é o justo supremo (o que deve ser, para ser governante do mundo) em todas as suas relações, em contraste com a fraqueza de Jó (v. 6), e sua incompetência em lidar com os ímpios como justo juiz ( 40: 3-9).  
Pensamento-propósito, como em 17:11; mas comumente aplicado a projetos maus (27:27; Sl 10: 2): a palavra ambígua é escolhido deliberadamente para expressar que, na visão humana de Jó, aparentemente, os planos de Deus parece ruins, mas  para o Onisciente continuam sem obstáculos em o seu desenvolvimento e, finalmente, estes planos serão vistos tão bons e infinitamente sábios, como eles são (Tiago 1:13, 17).”[8]

        Assim, fica evidente que Jó descobriu algo importantíssimo: a diferença entre o poder humano, e o poder de Deus. Como ser humano, ele descobriu como seus poderes eram limitados e impossíveis de se comparar com o poder de Deus que pode todas as coisas. Jó que havia tido condições de obter riquezas, família e ter servos, não podia todas as coisas, pois não pode enfrentar satanás, a doença, bem como, a depressão e o desânimo que se abateram sobre ele. Assim, ele reconhece que precisa de Alguém superior para ajudá-lo e que quem está no governo é o Altíssimo que age sempre com Justiça. [9]

Conclusão

            A contradição calvinista começa quando tentam usar esse texto para dizer que tudo que acontece é determinação de Deus. A Bíblia é clara quando diz que Deus não tem prazer na morte dos ímpios (Ezequiel 18.22), que os fariseus frustraram o plano de Deus para eles (Lucas 7.30), que Deus não queria que os filhos de Israel queimassem seus filhos (Jeremias 32.35) e etc. É claro que  Deus é soberano e poderoso para cumprir todos os seus propósitos, mas isso não significa que tudo que acontece é da vontade de Deus. Além disso, também é propósito de Deus permitir a liberdade humana para que (como foi citado nas palavras de Geisler e Lewis) exista amor verdadeiro. Deus além de salvar também quer aperfeiçoar Seus filhos para que tenhamos um relacionamento mais profundo com Ele! Deus usa todas as circunstancias (sem que tenha que determinar) em prol desse proposito. Falar que Deus determinou todos os atos do ser humano a partir de Jó 42.2 é não levar em conta o contexto do próprio livro, pois Deus repreende os amigos de Jó por terem falado o que não era reto diante d’Ele (Jó 42.7) e, portanto, seria uma incoerência ou até mesmo uma falsidade da parte de Deus repreender os amigos de Jó por falarem coisas falsas d’Ele, se na verdade eles só falaram porque o próprio Deus colocou as palavras na boca deles. Assim, o determinismo é refutado pelo contexto do livro, pela logica e por toda a Escritura. 




[1] Staneey Ellisen, Conheça melhor o Antigo Testamento pagina 182
[2] Quem criou Deus? Pagina 28, Editora Reflexão, edição de 2014
[3] IBIRD,29
[4] IBIRD, pagina 26
[5] IBIRD, Pagina 26
[6] Jamieson, Robert; Fausset, A. R .; Brown, David comentário exegético e explicação da Bíblia - Volume 1: O Antigo Testamento. El Paso, TX: Batista Publishing House, 2003, 435 S.

[7] Wiersbe, Warren W .: Seja Paciente. Wheaton, Ill.: Victor Books, 1996, c1991 (Um Antigo Testamento Estudo), S. Jó 42: 1
[8] Henry, Matthew: Comentário Bíblico de Matthew Henry Tomo. Miami: Unilit Editorial, 2003, S. 380
[9] Contribuição: Wesley  Paladino.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Perseverança e a Possibilidade de Apostasia - Keith D. Stanglin



A. Perseverança e a Possibilidade de Apostasia

Não seria acurado afirmar que Armínio diretamente negou a doutrina da perseverança dos santos; como foi o caso com outras doutrinas reformadas controversas, sua afirmação se fundamentou numa definição particular qualificada. Em sua Declaratio sententiae, Armínio declarou seus sentimentos a respeito da perseverança dos santos: “... que as pessoas que foram enxertadas em Cristo, pela fé verdadeira, e assim têm se tornado participantes de seu precioso Espírito vivificador, dispõem de poderes suficientes [ou] forças (cracht) para lutar (strijden) contra Satanás, contra o pecado, contra o mundo e a sua própria carne e para obter a vitória sobre esses inimigos, mas não sem a ajuda da graça do mesmo Espírito Santo.”[84] Estes verdadeiros crentes têm, portanto, implorado o socorro de Deus. Cristo os preserva de cair, até o ponto em que Satanás não conseguir de forma alguma tirá-los das mãos de Cristo.[85] Por cima, a definição de Armínio a respeito da perseverança não é significativamente diferente da de Gomarus, que define perseverança dos santos assim: “Ela é a persistência dos verdadeiros fiéis na fé, até o fim da vida, a partir da graça de Deus, por causa do mérito de Cristo, com a virtude do Espírito Santo através do ministério do evangelho, para a glória de Deus e salvação dos santos perseverantes.”[86] Tal como esta definição está, é difícil imaginar Armínio achando algum erro nela.[87]

            A questão real é se os santos necessariamente perseveram, ou se é possível a eles se perderem. Quando Armínio deu atenção explícita ao tópico da perdição dos santos, ele geralmente não se comprometeu com uma opinião firme. Em sua obra contra Perkins, no início da sua carreira, Armínio escreveu que ele não ousaria dizer prontamente que a verdadeira e salvífica fé, totalmente ou finalmente, se perde.[88] Até mesmo no fim da sua carreira, ele pareceu permanecer indeciso sobre esta questão.[89] De fato, os relatos da conferência final em Haia dois meses antes da sua morte mostram que Armínio nunca se opôs a doutrina no que diz respeito a certa perseverança dos verdadeiros fiéis (vere fidelium).[90] Ao mesmo tempo, facilmente se pode ver as inclinações de Armínio sobre este tópico. Não só ele é rápido em apontar que em nenhum momento na história da igreja algum ponto de vista particular sobre esta questão havia sido considerada como uma doutrina necessária, mas ele também afirma que a maior parte da tradição cristã, especialmente os pais, diria que é possível aos crentes se perder e perecer.[91] Ademais, quando Perkins defendeu que é impossível a verdadeira fé falhar, Armínio avida e habilmente argumentou contra essa visão.[92]

            Por causa da aparente vacilação de Armínio sobre a possibilidade de apostasia e por causa das inferências feitas a partir de seus mais claros ensinos, este assunto se tornou em outra área de conflito. Ele foi debatido em Leiden especialmente por causa dos claros ensinos de seus colegas contra a possibilidade de apostasia. De acordo com Gomarus e Kuchlinus, o enlace com Deus e a união do fiel com Cristo e a Igreja são perpétuas.[93] Gomarus aponta que os santos são os eleitos que possuem fé verdadeira, e não o réprobo que pode ter fé temporária.[94] Kuchlinus é particularmente inflexível que os santos nem sequer podem toti, totaliter, ou finaliter abandonar sua fé.[95] O dom da regeneração é ἀμεταμέλητα (irrevogável), “portanto, uma vez dado, o Espírito Santo sempre permanece.”[96]

            Armínio pode parecer, a princípio, incerto quanto a possibilidade de apostasia, mas após uma maior investigação o seu ponto de vista é realmente bastante direto. Dois pontos de distinção são essenciais para entender a posição de Armínio. Primeiro, Armínio distingue entre a possibilidade e a realidade dos fiéis se perderem. “Eu digo que deve ser feita distinção entre possibilidade e realidade (potentiam et actum). Pois uma coisa é os fiéis serem capazes (posse) de declinar da fé e da salvação: outra coisa é realmente caírem.”[97] Por mais estranha que esta distinção possa parecer ao intérprete moderno, esta distinção foi importante na teologia tradicional, como evidenciado pelo apelo de Agostinho (e Armínio) a mesma distinção na questão da perfeição cristã. Armínio prosseguiu dizendo,

Pois ser realmente salvo e a possibilidade de não ser salvo, não são coisas contrárias, mas concordam. Portanto, acrescento que sempre tenho distinguido entre estas duas coisas, de modo que realmente disse algumas vezes com explicação acrescida, que os fiéis são capazes de finalmente declinar da fé e da salvação; mas nunca disse que os fiéis finalmente declinam da fé e da salvação.[98]

            A afirmação clara de Armínio de que ele realmente ensinou que é possível aos crentes perderem a fé e a salvação à primeira vista parece contradizer a declaração igualmente clara na Declaratio sententiae de que ele nunca ensinou esta possibilidade. O texto traduzido por Nichols diz: “Eu nunca ensinei que um verdadeiro crente pode totalmente ou finalmente perder a fé e perecer.”[99] Contudo, após uma investigação mais detalhada dos textos originais, esta contradição aparente é resolvida, pois não há equivalente ao inglês “can” [poder] no holandês ou no latim. Esta falta de connen ou posse mostra que Armínio foi consistente em seu ensino sobre esta questão, e que na Declaratio ele estava falando da realidade, e não da possibilidade de apostasia. A frase deve ser lida: “Eu declaro inequivocamente que jamais ensinei que o verdadeiro crente se afasta (afwijcken), quer totalmente ou finalmente, da fé e assim se perde.”[100] Portanto, Armínio afirma a possibilidade de apostasia; se realmente isto acontece ele parece deixar aberto para discussão.

A segunda distinção significativa que Armínio faz é entre uma pessoa eleita e um crente. Ele observa que a eleição para salvação não denota apenas crença, mas também perseverança nessa fé. Portanto, uma pessoa eleita deve tanto crer quanto perseverar. “Crentes e os eleitos não são corretamente tomados como as mesmas pessoas.”[101] Para Armínio, há certamente a categoria de verdadeiros crentes que não perseveram. Por este raciocínio, os eleitos por definição não podem se perder, pois eles creem e perseveram. Os crentes simpliciter podem se perder caso não perseverem, demonstrando assim não serem eleitos. Além disso, este julgamento concorda com a distinção que Armínio faz entre os fiéis que caem da fé, e os fiéis que caem da salvação. De acordo com Armínio, é incoerente simplesmente afirmar que os fiéis podem perder a salvação. É mais apropriado dizer que os fiéis podem cair da fé; depois, como incrédulos, eles não teriam salvação. Enquanto os crentes perseverarem, eles têm salvação. “Pois é impossível aos fiéis, enquanto permanecem fiéis, declinar da salvação.[102]

Recordar a comparação do mendigo de Armínio, porque a fé é um dom resistível – porque um mendigo poderia presumivelmente rejeitar a esmola que lhe foi dada – a verdadeira fé não é necessariamente apenas para os eleitos. Provavelmente por causa da visão diferente de Gomarus da irresistibilidade da graça e da fé que ele se opôs a distinção teórica de Armínio (propriamente dos jesuítas) entre um crente verdadeiro e uma pessoa eleita. Ao concluir o seu debate sobre a perseverança, Gomarus insistiu, “Também os jesuítas maldosamente estabelecem duas espécies de verdadeiros fiéis e justificados, a saber, os eleitos que perseveram e os não-eleitos que declinam.”[103] O que aparece no sistema de Armínio é um tipo de fé temporária que, a despeito da objeção de Gomarus, não é muito diferente da categoria reformada de fé temporária. A semelhança prática entre os dois sistemas é que ambos concordariam que uma pessoa visivelmente fiel que aparentemente caiu até o fim demonstrou não ser um dos eleitos.[104] Uma dificuldade semelhante tanto para Armínio quanto para os seus contemporâneos reformados é que uma pessoa não pode dizer atualmente se ela ou qualquer outra pessoa verdadeiramente perseverará na fé ou na incredulidade.






Fonte: STANGLIN, Keith D. Arminius on the Assurance of Salvation. Leiden: BRILL, 2007. p. 130-134




[84] Dec. sent., p. 114; Works 1:664; Obras 1:232
[85] Dec. sent., p. 114-15; Works 1:664-65; Obras 1:232-33
[86] Gomarus, Theologicarum disputationum decimaoctava: de sanctorum perseverantia, Henricus Arnoldus respondens, 5 de Março de 1597 (Leiden, 1597), i: “Ea autem est vere fidelium in fide, ad finem usque vitae, ex Dei gratia, propter Christi meritum, virtute S. Sancti per ministerium Evangelii, perduratio, ad gloriam Dei et perseverantium sanctorum salutem.” Cf. a definição em idem, De perseverantia (1608), ii: “Perseverantia Sanctorum est, qua, qui vinculo non solùm aternae [sic] electionis, sed etiam Spiritus Christi, veraeque fidei Christo copulati, in perpetuum in ipso Christo et in fide perseveraturi sunt, ita ut a fide prorsus excidere non possint: idque non propter proprias vires, aut merita, sed tum propter promissionem, et conservationem divinam, tum propter Christi intercessionem et precationem.”
[87] Letham, ‘Faith,’ 1:314, exagera a questão quando afirma que, “Armínio não tinha qualquer doutrina da perseverança.”
[88]Exam. Perk., em Opera, p. 757; Works 3:454; Obras 3:457.
[89] Veja Dec. sent., p. 115; Works 1:667; Obras 1:233. O quinto artigo da Remonstrância de 1610 é igualmente indecisa sobre esta questão porque, como o quarto artigo, ele é tomado quase que literalmente da Declaratio sententiae de Armínio. Sobre a relação entre a Declaratio de Armínio e a Remonstrância de 1610, veja Hoenderdaal, ‘Inleiding,’ pp. 36.41.
[90] Acta Synodi, fol. (d)1v; veja também a carta de Hommius para Lubbertus em Wijminga, Hommius, Bijlage G, p. xiv.
[91] Art. non., em Opera, p. 962; Works 2:725; idem, Exam. Perk., em Opera, pp. 757-58; Works 3:454-55.
[92] Exam. Perk., em Opera, pp. 757-66; Works 3:454-70.
[93] Gomarus, De perseverantia (1597), ix e xi; idem, De fide iustificante (1603), xvii; Kuchlinus, De perseverantia (1603), v e vii.
[94] Gomarus, De perseverantia (1608), vi.
[95] Kuchlinus, De perseverantia (1603), i.
[96] Kuchlinus, De perseverantia (1603), viii: “ergo semel datus Spiritus Sanctus semper manet.” Cf. Trelcatius, Sr., De fide (1592), xi, que chama a fé de dom ἀμεταμέλητα.
[97] Apologia, art. 1-2, em Opera, p. 136; Works 1:741; Obras 1:257.
[98] Apologia, art. 1-2, em Opera, p. 136; Works 1:741; Obras 1:257-58, itálicos meus: “Salvari enim actu et posse non salvari contraria non sunt, sed consentanea. Addo igitur me inter ista duo huc usque ita discriminasse, ut addita explicatione aliquando dixerim quidem, fideles posse a fide et salute finaliter deficere; at nunquam dixisse fideles a fide et salute finaliter deficere.” Os itálicos na tradução de Nichols para o inglês  são confusas, como se a ênfase estivesse sobre finaliter. A diferença real é a presença e depois a ausência de posse.
[99] Em Works 1:667; Obras 1:233.
[100] Dec. sent., p. 115; Opera, p. 123. Aqui reside um ponto de descontinuidade com os remonstrantes posteriores, os quais, uma década após a morte de Armínio, afirmaram não apenas a possibilidade, mas também a frequente realidade da apostasia. Veja Sententiae Remonstrantium no quinto artigo, entregue na 34ª sessão do Sínodo de Dort, em Acta synodi nationalis, in nomine Domini nostri Iesu Christi... Dordrechti habitae anno M.DC.XVIII. et M.DC.XIX (Hanau, 1620), p. 166 (ênfase minha): “Vere fideles possunt a vera fide excidere, et in istiusmodi prolabi peccata, quae cum vera et iustificante fide consistere non possunt: nec potest hoc tantum fieri; sed et non raro fit.” As Sententiae Remonstrantium estão traduzidas em Crisis in the Reformed Churches: Essays in Commemoration of the Great Synod of Dort, 1618–1619, ed. Peter Y. De Jong (Grand Rapids, 1968), pp. 221-29. Cf. Hoenderdaal, ‘Arminius en Episcopius,’ 216; Graafland, Van Calvijn tot Barth: Oorsprong en ontwikkeling van de leer der verkiezing in het Gereformeerd Protestantisme (The Hague, 1987), p. 175.
[101] Arminius, Quaestiones, resp. 8, em Opera, p. 186; Works 2:68; Obras 1:350.
[102] Apologia, art. 1-2, em Opera, p. 136; Works 1:741-42; Obras 1:258: “Nam impossibile est fideles, dum fideles manent a salute deficere.”
[103] Gomarus, De perseverantia (1597), cor. ii: “Male etiam Iesuitae vere fidelium ac iustificatorum duas constituunt species, videlicet electos, qui perseverant: et non electos, qui deficiunt.”
[104] Cf. Kendall, Calvin, pp. 143-45.


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